A cura no silêncio
- Pedro Mendes
- 9 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
Durante nossa caminhada de vida, é certo que nos deparamos com momentos em que nós, ou alguém que nos é muito caro, ficamos tão tristes, decepcionados, frustrados, que palavra alguma - por mais bem articulada e intencionada que seja - não nos alcança; caem em ouvidos surdos. Nesses casos, aqueles que estão ao lado de fora do turbilhão emocional têm algumas opções: ou seguir insistindo com as palavras, buscando de alguma maneira alcançar aquele que sofre, ou aceitar que o tempo de falar passou e simplesmente se manter calado ao lado de quem estiver sofrendo, se dispondo a acolhê-lo ou acolhê-la, ajudá-lo ou ajudá-la, da maneira que puder.
Ainda que a princípio a primeira opção possa parecer a melhor, há ressalvas a serem feitas: Por vezes a insistência no falar pode ter o efeito contrário de que se espera - ao invés de consolar, encorajar, terminamos ou por irritar ou até mesmo aprofundar as feridas de quem sofre. Em alguns casos, por atingirmos nosso limite de paciência e tolerância, ao perceber que nossas palavras não estão surtindo efeito, podemos até recorrer à hostilização verbal (e talvez até física) numa tentativa desesperada de alcançar a outra parte.
Por outro lado, a segunda opção, para casos como esses, apresenta-se como uma abordagem bastante adequada: sabemos que as feridas do nosso próximo são tão profundas que, por mais que falemos com toda candura e todo amor, palavra nenhuma o alcança. Sabemos, ademais, que a insistência no falar pode não apenas ter o efeito invertido, mas também nos fazer ter atitudes impensadas e terríveis. Sabemos, também, que não podemos simplesmente entregar nosso próximo às misericódias de sua tristeza, o que poderia levá-lo ou levá-la a um caminho muito trágico. Nos sobra, então, respeitar o tempo de dor do outro, manter o silêncio e se dispor a estar ao seu lado para estender um ombro para chorar, para dar uma mão, um abraço, um beijo, o que quer que venha ser mais adequado dado o contexto.
Há momentos em que pode ser difícil enxergar isso, mas nossas palavras possuem muito poder - sobre nós e sobre os outros, tanto para o bem quanto para o mal. Há ocasiões em que o Espírito Santo atua sobre nosso falar e através dele abençoe a vida de outros, contudo é também muito provável que de nossa boca também saiam dizeres maus, vide o apóstolo Simão Pedro, quem primeiro declarou Jesus como Cristo, mas que logo em seguida repreendeu o Mestre pela profecia que fez a respeito de seu sofrimento e morte (Mc 8.29-33). Portanto, se não formos cuidadosos como nossa boca, a tendência será de que lançaremos palavras impensadas e que machucam.
Nesse sentido, ainda que possa inicialmente parecer contraintuitivo, o silêncio pode ser uma resposta muito adequada a casos de tristeza aguda. Não se trata de um silêncio indiferente, porém - que simplesmente se distancia - e sim um silêncio “ativo”: que busca entender a dor e as necessidades (afetivas ou de qualquer outra sorte) do outro, sem que para isso lhe seja necessário verbalizá-las.
Não se trata de tarefa simples: requer muita paciência, muito cuidado e muito respeito. Contudo, é o caminho que mais nos aproxima do nosso Deus. Lembre-se de que o Pai, no momento de maior sofrimento de Jesus, não disse uma só palavra, mas esteve ao lado de seu filho amado, através do anjo que veio para fortalecê-lo (Lc 22.43). O Pai nos lega o exemplo de que a melhor cura para uma dor aguda nem sempre vem do falar, mas sim por meio do silêncio que acolhe, que cuida, que é paciente, que é compreensível, que ama.
Ainda que nenhum de nós, por nós mesmos, sejamos capazes de ser sequer uma fração de como o Pai foi para Jesus, na sua grande glória, o Senhor nos deu seu Santo Espírito, para que através de seu direcionamento, sejamos capazes de trazer cura e acolhimento àqueles que sofrem. Talvez, haja momentos em que essa cura seja falada, mas podem haver outros mais em que a única cura é no silencioso. Um silêncio de modo algum indiferente e distante, mas que é amoroso e caloroso.
Oro para que todos nós, diante do sofrimento alheio, busquemos, no Santo Espírito e nos ensinamentos da Palavra de Deus, a sabedoria o discernimento para melhor acolher aquele que sofre. Que não permitamos que nossa língua perca o equilíbrio, mas que antes busquemos, no silêncio ativo, caloroso e amoroso, a cura, através do entendimento, da paciência e do carinho.
Amém!
Pedro Costa Mendes.

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