A fé que atravessa as dúvidas
- Pedro Mendes
- 3 de ago. de 2025
- 4 min de leitura
A dúvida é algo acompanha a humanidade desde seus primórdios, que permeia todos os aspectos da vida humana e que continua nos acompanhando nos dias atuais. Em grande medida, foi graças aos questionamentos que tivemos enquanto espécie que avançamos tanto não apenas em termos de conhecimentos dos aspectos naturais do mundo, mas também no que diz respeito ao entendimento de aspectos inteligíveis, como o funcionamento das sociedades, padrões de comportamento, dentre outras questões.
No entanto, ao mesmo tempo em que a dúvida nos leva a investigar e a conhecer mais, também gera em nós mais questionamentos do que propriamente esclarecimentos. Isso, do ponto de vista das ciências, sejam as da natureza ou sociais, é esperado e até mesmo bem-vindo; ora, as dúvidas, nesses contextos, não são nada além do que oportunidades para expandir ainda mais as descobertas já feitas ou eventualmente fazer correções de rota no conhecimento previamente acumulado. Mas as dúvidas penetram até mesmo aquilo que se esperaria em que não deveria haver qualquer questionamento - por causa de uma suposta incapacidade, ou até imoralidade, em se questionar - que é a fé.
Apesar de em determinados momentos termos a sensação de que é errado ou de outros apontarem a nós como estando errados (ou de nós mesmos sermos esses acusadores), é complemente razoável, meu irmão e minha irmã, que tenhamos dúvidas sobre um ou mais aspectos de nossa fé, quando não toda ela. Com efeito, no texto bíblico há vários casos de personagens que apresentam momentos de dúvida profunda, mas aqui serão abordados apenas dois deles: Gideão, um dos juízes do antigo Israel, cuja história é retratada entre os capítulos 6 a 8 do livro de Juízes, no antigo testamento, e Tomé, um dos apóstolos de Jesus, personagem que é citado ao longo dos evangelhos, no novo testamento.
A história de Gideão começa retratando a ele, o protagonista, como um covarde e alguém com uma baixíssima autoestima, que se considerava o menor de sua casa, na tribo que já seria a menor de Israel (Jz 6.15); mas, além disso, o apresentava como alguém que possuía sérias ressalvas quanto a quem Deus era e o que poderia fazer, mesmo depois de ouvir a voz de um anjo enviado dos céus e de testemunhar feitos que desafiavam a lógica um atrás do outro. Com efeito, precisou colocar o Senhor à prova por várias ocasiões antes de se sentir seguro o suficiente para crer (Jz 6.17, 36-40).
A trajetória de Tomé é um pouco mais difícil de traçar do que a de Gideão, dado que não teve capítulos dedicados a narrar sua história, sendo um personagem cujos relatos estão fragmentos ao longo dos evangelhos. De todo modo, todavia, um dos momentos mais marcantes desse apóstolo - e provavelmente aquele que melhor ajuda a construir uma imagem de sua personalidade - está descrito no evangelho de João, em seu capítulo 20. Embora alguns dos discípulos tivessem sido testemunhas oculares de Jesus ressurreto, Tomé não acreditou nos relatos de seus companheiros e impôs claras condições para crer: "Se eu não vir as marcas dos pregos nas suas mãos, não colocar o meu dedo onde estavam os pregos e não puser a minha mão no seu lado, não crerei." (Jo 20.25b). Repare, meu irmão e minha irmã, no quão carregada de dúvida as palavras proferidas por Tomé realmente são: mesmo depois de todo o tempo acompanhado Jesus e sendo testemunha ocular de incotáveis milagres, o apóstolo, que também era chamado de Dídimo, era incapaz de acreditar que seu Senhor poderia vencer a morte.
Perceba, meu irmão e minha irmã, que tanto Gideão quanto Tomé esticaram a fé deles ao limite, ao ponto até mesmo de flertarem com a descrença total. Isso, para muitos de nós, pode ser visto como um absurdo, algo inadmissível, quando não descaradamente pecaminoso. Como pode, afinal, um crente ter dúvida, quando o ato de crer seria o ponto máximo de sustentação da nossa fé? Se não se crê, não se tem fé, então, para fins práticos, Deus não existe, não é mesmo?
O que devemos entender, porém - e a história desses dois personagens bíblicos é um meio para isso - é que as dúvidas fazem parte de nossa caminhada cristã e que eventualmente podemos, sim, estar sujeitos a elas, até mesmo em nível tão ou mais profundos do que Gideão e Tomé. Mas isso, meu querido e minha querida, não deve, de modo algum, ser motivo para desespero ou autoflagelamento - porque até mesmo para Gideão e Tomé, tão questionadores e céticos como eram, Deus lhes conferiu, no devido tempo e na devida forma, com a segurança que necessitavam para clarear as escuras nuvens de dúvida que pairavam em suas mentes para que pudessem enxergar a radiante luz d’Ele.
Portanto, que tenhámos a consciência de respeitar a nós mesmos, e especialmente aos outros, quando diante dos mais profundos questionamentos a nossa fé. Mas que possamos nos agarrar a confiança de que, se temos dúvidas agora - e muito provavelmente novas dúvidas surgirão com o transcorrer do tempo - o Nosso Senhor virá até nós, com toda paciência, candura e amor e nós assegurará, quantas vezes e de quantas formas for necessário, de que Ele existe e de que Seu amor, seu poder e seu agir sobre nós é igualmente real e vívido.
Oro para que, se você esteja enfrentando um momento de profunda dúvida em sua fé, Deus possa visitá-lo ou visitá-la e fazer como fez com Tomé e Gideão: por quantas vezes e de quantas formas for necessário, possa te encher da segurança de que Ele, e tudo o que Ele pode fazer, é real e vívido.
Amém!
Pedro Costa Mendes.

Comentários