A perfeição conduzida, não conquistada
- Pedro Mendes
- 8 de jun. de 2025
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Perfeição. A qualidade daquilo em que é impossível encontrar falha, fissura, negativos. Alguns de nós - e eu pessoalmente me incluo nisso - a buscamos, seja em um, ou outro, ou vários dos campos de atuação de nossas vidas, de maneira praticamente obsessiva. O perfeccionismo. O sentimento de que nós precisamos ser perfeitos. Não se pode ter margem para falha. E se, falhamos, somos automaticamente fracassados, totalmente incapazes de executar a tarefa a qual nos propomos a cumprir.
E assim se inicia o ciclo de autocobrança. Cada tropeço, por mais banal que seja, toma uma proporção colossal, um fracasso imperdoável que, se repetido, é motivo para ainda maior autocrítica, autodecepção e autoflagelo. Precisamos ser perfeitos. Portanto, não há margem para falha, por mínima que seja.
Conforme seguimos caminhando com essa autocobrança, com essa obsessão pela perfeição, ela se aloja em nosso ser e, tal qual um organismo estranho que se inflitra em nosso corpo, começa a nos adoecer. Não se trata de enfermidade física nesse caso, no entanto. Mas sim da ordem mental e espiritual. Começa a adoecer nosso humor, nós tornando mais amargurados e com baixa autoestima. Começa a adoecer nossas relações, quando inadivertidamente descontamos nossas decepções sobre os outros, principalmente aqueles que amamos. Começa a adoecer nossa alma, quando alocamos a busca pela perfeição em um lugar no qual somente uma entidade deveria ocupar em nós: Deus. Passamos, com efeito, a idolatrar a ideia da perfeição. E idolatrando, somos escravizados por ela.
Uma vez nessa condição, ficamos, muito ironicamente, ainda mais distantes do que jamais estivemos da tão deseja e buscada perfeição. Nos tornamos mais distraídos - em tanto desejar a perfeição e em tanto se cobrar pelas falhas, nos sentimos mais pressionados, o que, por sua vez, reduz nossa capacidade de executar nossas tarefas de maneira minimamente adequada. Pior do que isso: criamos um monstro autofágico, que primeiro começar a moer nossa estabilidade emocional, para depois seguir para as relações, até o ponto de triturar o âmago mais profundo de nosso ser.
A grande questão, meu irmão e minha irmã, é que nós, enquanto humanidade, somos falhos. Tão falhos, de fato, que somos capazes de perveter algo que pode ser considerado como louvável e respeitável tal qual a busca pela perfeição. Pervetemos por nossa arrogância, por nosso orgulho, em imaginar que somos capazes de atingir um nível de controle sobre nossas atividades, nossa aparência, nossas relações, nosso próprio ser, a tal patamar ninguém jamais colocará sobre questão. Imaginamos, com efeito, que podemos atingir patamares de transcendência, de divindade de fato, que não teremos nem sequer um fio de cabelo fora do lugar.
O problema é que por mais que tentemos fugir, rejeitar, ignorar, o fato fundamental e inexorável a respeito da humanidade segue o mesmo: somos falhos e, portanto, jamais seremos perfeitos (ou pelo menos, jamais seremos perfeitos, se depender apenas de nós). O mundo em que vivemos, afinal, é caracterizado, desde seu início, pelas falhas da humanidade. Em contrapartida, perfeição, no que quer que seja ou em quem quer que seja, é impossível de se encontrar, em toda história. Sem dúvida, existem momentos, pessoas, teorias que poderiam ser considerados por muitos como perfeitos ou, pelo menos, quase isso, mas até mesmo esses possuíam alguma fissura, falha, tropeço, ainda que talvez seja não tão visível à superfície.
Que podemos fazer, então, se a perfeição é impossível e se sua busca pode, em alguns casos, nos levar a ruína? Precisamos, pura e simplesmente aceitar a nossa condição, enquanto seres mais falhos, mas, ao mesmo tempo, descansar na verdade de que, mesmo que algo seja impossível para o homem, é plenamente possível para Deus! (Lc 18.27b).
Ora, trata-se de algo que deveria vir sem nenhuma surpresa: somente mediante Aquele que é verdadeiramente perfeito, nosso Deus, nosso Senhor, Jesus Cristo, podemos nós mesmos, seres imperfeitos, alcançarmos a perfeição. Mas não se trata de uma pretensa “perfeição” que acreditamos com todas as forças que conquistamos pelo nosso próprio mérito e que podemos - em alguns casos de maneira inadivertida e em outros, de forma totalmente proposital - brandir na face dos outros como uma bijuteria cara, mostrando como nós somos "tão melhores" do que eles. Não. Trata-se da genuína perfeição, que não é um fim em si mesma, mas um meio: não alcançamos a perfeição, mas somos conduzidos até ela por Jesus, para que, por meio dessa perfeição, o nome d’Ele seja glorificado por todo mundo e que o Reino dos Céus seja expandido nesta Terra. A perfeição não é nossa nem serve a nós. A perfeição é de Jesus e serve a Jesus.
Devemos ter plena consciência, ademais, de que essa perfeição não virá no tempo que, provavelmente, a maoria de nós deseja que venha - de maneira imediata. De modo algum, meu irmão e minha irmã, porque nosso Deus é um trabalhador cuidadoso e respeitador. Ele sabe o quão cheio de fissuras nós somos, como frágeis vasos de barros, cheios de rachaduras, para tomar emprestada uma metáfora utilizada pelo apóstolo Paulo (2Co 4.7). Precisamente por essa razão que nosso Senhor nos conduz, cuidadosamente, mas de maneira igualmente firme (se assim permitirmos) para que, eventualmente (e esse é um “eventualmente” que apenas Deus conhece), alcancemos a perfeição.
Precisamos, também, estar igualmente conscientes das condições sobre as quais o processo de Deus ocorre. Em primeiro lugar, precisamos estar totalmente rendidos a Ele, confiantes em seu amor e seu cuidado. Jamais devemos ser seduzidos por ideações de controle sobre nossas vidas e conquista por nossa própria força. Em segundo lugar, devemos genuinamente amar e respeitar a nós mesmos. Devemos acolher e abraçar nossas falhas, nossas contradições, nossas fissuras, nossas limitações. Por mais doloroso e decepcionante que possa ser ter de lidar com o amargor da falha, devemos nos desculpar e nos perdoar, da mesma maneira como um pai continua a amar e acolher um filho que tomou uma terrível decisão (Lc 15.20). Por fim, e de modo algum menos importante, necessitamos encontrar a apreciação pela jornada rumo à perfeição, mais do que o destino final em si. Podemos andar tranquilos, porque Deus já perdoo todos os erros que cometemos, estamos cometendo e vamos cometer. Não precisamos, nós mesmos, nos cobrar por algo que nosso próprio Senhor já não nos cobra mais. Ao contrário, devemos aproveitar que Ele já nos garante uma jornada leve (Mt 11.28-30) para nos permitir errar, mas também experimentar, e sobretudo apreciar gradimente, os vislumbres de onde podemos chegar na medida em que Deus age em nós e através de nós.
Portanto, meu irmão e minha irmã, se você se enxerga como um perfeccionista ou se alguém já o apontou como tal, pare e repense sua postura. Não se deixe cobrar tanto de si mesmo. Não permita que a busca pela perfeição se torne uma obsessão autodestrutiva em sua vida. Antes, descanse. Aceite suas falhas e entregue-as como sacrifício vivo ao Senhor, nosso Deus. Confie n’Ele. Ame-o acima de todo entedimento. Ele cuidará de você como filho ou filha e, com cuidado e respeito, trabalhará na sua alma como um ourives trabalha em um vaso de barro. Mas calma. Não busque apressar o trabalho de Deus. Aceite o tempo d’Ele. Aceite que, mesmo com Ele, você ainda falhará. Entretanto, se permita viver uma vida leve, porque você poderá se surpreender e descobrir o prazer em trilhar a jornada.
Oro para que eu e você larguemos de qualquer obsessão por perfeição e que, em Deus, aprendamos a aceitar nossos erros e falhas e nos permitamos ser conduzidos, por Ele, para a perfeição, mas sempre encontrando alegria e apreciação na jornada até lá.
Amém!
Pedro Costa Mendes.

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