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Caminhada cristã e Jiu-jitsu - Jornadas que se cruzam

  • Foto do escritor: Pedro Mendes
    Pedro Mendes
  • 2 de nov. de 2025
  • 4 min de leitura

A pouco tempo, tive uma das conquistas mais marcantes na minha vida: alcançar a faixa-preta no Jiu-jitsu. Foi um momento de muita felicidade, de muita comemoração, mas também foi um momento para manter em mente o que há de mais importante: a gratidão a Deus, aos meus professores, companheiros e companheiras de treino, ao meu pai, quem me introduziu a arte marcial; a humildade de reconhecer que a nova faixa não era um sinal de superioridade e sim de servir e ajudar a outros a se desenvolverem no Jiu-jitsu e na vida; e a consciência de que não era nada mais que um passo em uma jornada que já conta uma década e que pode e deve ir a muito além disso.

Mas além de tudo isso, esse momento reforçou uma ideia que há tempos estive me debruçando sobre: o quanto que o Jiu-jitsu é um espelho de como eu vejo a caminhada cristã. Estou certo de que, para todos os irmãos e irmãs da fé que leem, houve momentos em que quisemos parar. Passamos por dias em que nada dá certo, em que somos machucados, em que nossos problemas nos dominam. Então, cansamos e cogitamos desistir de tudo, parar de caminhar. 

Durante minha trajetória no Jiu-jitsu foi assim, por muitas vezes. Tantos dias, me lembro bem, saia de treinos em que havia sido dominado pelos meus companheiros do tatame. Ficava tomado pela frustração e pelo murmúrio. Me deixava levar pela sensação de que não estava progredindo, que não havia mais sentido em retornar ao Jiu-jitsu.

Minha trajetória no Jiu-jitsu era também dificultada pelas distrações que eram geradas por outras áreas na minha vida, como escola e faculdade. Tanto os últimos anos de ensino médio quanto os períodos finais do ensino superior foram momentos em que meu comprometimento pendeu muito mais para o desenvolvimento acadêmico do que o desenvolvimento na arte marcial, o que reforçou um ciclo vicioso em mim: cada vez que eu terminava um treino e era dominado pelos companheiros e ficava frustrado, reclamava para mim e para qualquer um que tinha a infelicidade de estar próximo, dizendo o quanto eu precisava melhorar de alguma maneira, me escondia atrás dos meus compromissos acadêmicos e dos videogames, ao invés de se esforçar - minimamente que fosse - para buscar melhorar a técnica no Jiu-jitsu.

Para completar, havia sempre um susurro na minha mente que falava “será que você está fazendo isso por você mesmo, de verdade? Ou será que só está fazendo isso para agradar seu pai?”. A verdade é que não retornei ao Jiu-jitsu, depois de alguns anos tendo treinado quando criança, por mim mesmo, mas sim porque fui incentivado por pai. Então, por todas as vezes em que me frustrei, reclamei e verbalizei meu desejo de sair, pensei nele. Por mais que ele próprio me garantisse que nada mudaria se eu saisse, eu terminava me forçando a me manter no Jiu-jitsu por receio de que, ao fim, eu realmente desapontá-lo. Terminei, com isso, aumentando ainda mais o fardo emocional sobre a prática da arte marcial.

Eis então que surgiram algumas figuras importantes que não somente me ajudaram a me manter no Jiu-jitsu, mas que também contribuíram para que eu pudesse resignificar tudo que essa jornada representava para mim: as pessoas e, é claro, Deus. Mesmo com todas as frustrações e reclamações, meu pai, os instrutores e até mesmo os próprios companheiros de treino que costumavam me dominar nos treinos, me incentivavam e me davam as direções para que eu pudesse me superar e me desenvolver. Contudo, foi sobretudo no momento em que me convertei e aceitei a Cristo que foi submetido a uma impactante transformação na forma como passei a enxergar o Jiu-jitsu. 

Jesus abriu meus olhos para aquilo que eu me recusava a ver: o copo meio cheio, ao invés do meio vazio. Ao invés de focar os olhos no desempenho dos treinos, passei a ver e conhecer melhor meus companheiros e companheiras de treino, de tal modo que se tornaram mais do que isso - irmãos e irmãs, amigos e amigas. Ao invés de me esconder atrás das outras áreas da minha vida como uma desculpa para a dificuldade em me dedicar ao Jiu-jitsu, passei a ser mais intencional em pesquisar, buscar a ajuda de meu pai e dos professores para refinar minha técnica. Ao invés de me questionar se eu treinava apenas para agradar o meu pai, passei a me concentrar naquilo que o Jiu-jitsu agregava a mim, pessoal e individualmente.

Não irei mentir, meu irmão e minha irmã: esse processo de transformação em Cristo, não ocorreu do dia para a noite. Ao contrário, ele ainda está ocorrendo. Por muitas vezes eu ainda me pego frustrado, reclamando, desejando largar tudo e sair. Porém estou certo de que não apenas isso tem ocorrido muito menos do que antes, como também sei, pela graça de Deus, que essas decepções não se comparam a alegria de estar no tatame, com meus irmãos e minhas irmãs, conjuntamente se desenvolvendo, se divertindo, se fortalecendo.

Nesse contexto, a faixa preta representa para mim de um lado uma grande conquista de persistência e superação pessoal e, de outro, uma benção de Deus. Em ambos os casos, sei e reafirmo isso para mim mesmo, que jamais poderei transformar meu novo cinturão em um fim em si mesmo. No momento em que o passo supera a jornada, em que a benção supera a caminhada, tenho absoluta certeza de que estou dando um fim súbito a minha trajetória. Não deve ser somente sobre receber, e sim sobre receber, corresponder a responsabilidade que se está sendo confiado e servir - servir a Deus, servir aos outros e servir a si mesmo. É sobre persistir mesmo quando somos abatidos pela negatividade e ela tenta se impor em nós. É sobre ter fé e confiar que, no final, tudo vai valer a pena!

Nós humanos somos falhos e a qualquer momento podemos tropeçar, mas confio em Jesus, confio que Ele caminha comigo e confio que, com Ele, não irei me desviar, nem do Jiu-jitsu, nem da minha trajetória de fé! Que façamos como está escrito e “corramos com perseverança a corrida que nos é proposta, tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador de nossa fé.” (Hb 12.1-2).


Oro para que cada um de nós possa persistir em nossas jornadas pessoais, independemente das dores, das dificuldades, das lutas, sempre fixando os olhos em Jesus, centralizando o foco n’Ele e nas pessoas e maravilhas que Ele coloca em nosso caminho para nos apoiar!


Amém!


Pedro Costa Mendes.


 
 
 

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"Um novo mandamento lhes dou: Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso, todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês amarem uns aos outros."

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