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O amor transcendente

  • Foto do escritor: Pedro Mendes
    Pedro Mendes
  • 24 de nov. de 2024
  • 5 min de leitura

Por mais que tentemos negar ou esconder, o preconceito, em alguma de sua múltiplas formas (ou várias delas ou mesmo tempo), está incrustado em cada um de nós - independemente da formação que tenhamos ou da fé que temos. Somos rápidos em tecer julgamentos sobre o outro, o diferente, sem ter em menor intenção de ouvir seu lado da narrativa. Pior ainda: assumimos o tipo de comportamento que o outro terá e o coibimos de exercer sua individualidade ao lançar sobre ele uma barragem de palavras de ódio, de rejeição, de desgraça, pelo simples fato de ele ser diferente - diferente em raça, diferente em religião, diferente em pensamentos políticos, diferente em gênero, diferente em etnia, diferente de tantas formas que não é possível listar todas.

Em um contexto como esse, não é de se espantar que hajam determinadas pessoas, partes de segmentos minitórios da sociedade, que vivam com medo de expressarem sua opinião, serem agredidas verbal ou fisicamente ou até mesmo serem perseguidas por entes privados ou mesmo um Estado que não consideram seus direitos. Para a parcela majoritária “normal” da sociedade essas pessoas, esses “outros”, são, no mínimo, indignos de seu tempo e sua preocupação ou, mais grave, são inimigos, ameaças a sua ordem, ao seu status quo e que, por isso, devem ser erradicadas. O resultado, meu irmão e minha irmã, é uma sociedade fragmentada, dividida entre si, caracterizada não pela demonstração de compaixão ao próximo, mas pelo ódio ao inimigo. Uma sociedade em que o forte, o poderoso, impera e o fraco, o oprimido, vive de cabeça baixa.

Contudo, há mais de dois mil anos atrás, nos foi mostrado uma alternativa. Nos foi mostrado que não precisa ser assim. Nos foi ensinado que aquele que tanto julgamos, aquele que tanto desprezamos, pode ser nosso salvador. Ora, ainda que os alvos fossem outros, o preconceito sempre existiu entre a humanidade, algo que nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo sabia muito bem. Foi precisamente por isso que Ele, enquanto conversa com seus discípulos e um mestre da lei, um fariseu, expos a parábola do bom samaritano, na qual um judeu, depois de ser assaltado e espacando, encontrava-se largado na estrada, a um fio da morte (Lc. 10: 30). Passou por ele um sacerdote, portanto, um homem de Deus. Imaginar-se-ia que, enquanto homem de Deus, ele se compadeceria de seu irmão e o salvaria, mas, contrário a isso, passou direto pelo homem ferido e seguiu aos seus afazeres (Lc. 10:  31). Passou, depois, um levita, também alguém de muita estima a Deus, especialmente naquele momento. Seria, pelas mesmas razões citadas para o sacerdote, que o levita ajudaria seu irmão em necessidade. Mais uma vez, contudo, o homem ferido seria abandonado (Lc. 10: 32). No entanto, eis que contra todas as expectativas, um samaritano, isto é, alguém que para os judeus era impuro, indigno, nascido pelo mal e para o mal, estendeu a mão para salvar o homem ferido (Lc. 10: 33). Mas não parou aí. O samaritano aplicou os primeiros socorros e se encarregou de todas as despesas médicas e de estadia que o judeu ferido precisava (Lc. 10: 34-35).

Naturalmente, meu irmão e minha irmã, um ensinamento dessa natureza causou enorme choque e, não surpreendentemente, igualmente grande repulsa por parte não somente dos fariseus, mas, creio, também de seus discípulos - ainda naquele momento portadores dos preconceitos das sociedades que viviam. “Como se poderia conceber que um samaritano, uma ‘escória’ na terra, poderia me salvar”, poderia pensar um judeu naquele tempo.

Agora, façamos um exercício, pense em como Jesus poderia propor tal parábola nos dias de hoje. Imagina-se em uma situação de extrema necessidade, mas seus amigos, aqueles de quem você esperaria ajuda automática, natural, partidários de esquerda ou de direita, brancos, heterossexuais, cristãos não doam sequer um segundo de seu tempo para ouvir, quanto mais ajudar. No entanto, justamente uma pessoa, da estirpe que te causa mais ojeriza - um militante de esquerda ou de direita, um homossexual, um transsexual ou um negro - é precisamente quem estende a mão em seu momento de maior necessidade. Perante a isso, qual seria sua resposta? Viver com ainda mais ódio daqueles que já são alvos de sua fúria, porque o viram em seu momento de maior fraqueza e porque traíram tudo aquilo que você cria ser verdade a respeito deles? Ou engolir seu orgulho e ser eternamente grato a eles porque foram seus resgatadores em seu momento de maior necessidade?

Não cabe a nenhum de nós julgar o outro através de ideias preconcebidas que tenhamos a seu respeito. Ora, gostaríamos que os outros julgassem a nós só porque “parecemos” ser um tipo de pessoa? Se respondermos não e ainda assim julgamos os outros, não somos melhores do que aqueles que os fariseus que foram desafiados por Jesus a arremessarem a pedra na mulher adúltera (Jo. 8: 7) - em outras palavras, não somos mais do que hipócritas.

O outro, enquanto ser humano e, portanto, enquanto criação de Deus, igual a mim ou a você, independemente da cor da pele, do gênero, de fé ou da ideologia política que escolheu é tão capaz de exercer o bem e o mal assim como eu e você somos; é tão capaz de amar quanto nós amamos (ou deveríamos amar). O outro, meu irmão e minha irmã, é tão capaz de ser um canal da graça de Deus quanto nós (inclusive, é bastante provável que Deus use o outro como canal de sua graça para limpar os nossos preconceitos).

Portanto, enquanto cristãos, meu irmão e minha irmã, quanto maior é a nossa responsabilidade em nos despir de preconceito, de qualquer natureza, pois nós conhecemos quem foi Jesus, seus ensinamentos e como Ele nos salvou - nós, que somos os indignos dos indignos. Sendo indignos como somos, que direito temos de julgar o outro como pior do que nós? Ao demonstrarmos ódio, rejeição e preconceito, cuspimos em todos os ensinamentos e legados deixados por Jesus - justamente caracterizados por aquilo a que Lhe era mais caro, aquilo que é a representação mais cristalina de sua essência: o amor incondicional, imerecido.

Jesus jamais condicionou o seu amor, jamais disse: “Ame, mas somente aqueles de determinada cor de pele.”; “Ame, mas somente aqueles militantes de esquerda/direita”; “Ame, mas somente aqueles que são heterossexuais”; “Ame, mas somente aqueles que seguem ao meu Nome, que são cristãos”; não, meu irmão e minha irmã. A ordenança de nosso Senhor é: “Ame o próximo, como a ti mesmo” (Mt. 22: 39; Mc 12: 30), sem "mas", sem condições extras. Dessa forma, diante do diferente, do outro, do próximo, tão somente ame!

Não podemos, portanto, aceitar preconceitos nem em nós mesmos, nem nos locais onde cultamos, pois, conforme ensinou Nosso Senhor, nossa marca distintiva ao mundo é nosso amor entre nós e os outros (João 13: 34-35). Só o amor pode atravessar as diferenças que existem entre nós e nos conectar de uma maneira que transcende qualquer medo, qualquer apreensão, qualquer inimizade.


Por isso, eu oro, por mim e por você, para que nos livremos de nossos preconceitos e quem, em seu lugar, nós possamos amar mesmo aquilo tipo de pessoa com as quais pensamos ser incapaz de até mesm dividir o mesmo espaço.


Amém!


Pedro Costa Mendes.


 
 
 

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JOÃO 13;34-35

"Um novo mandamento lhes dou: Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso, todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês amarem uns aos outros."

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