O ciclo do Leão do Cordeiro
- Pedro Mendes
- 16 de mar. de 2025
- 3 min de leitura
O leão, um imponente predador felino mundialmente conhecido por sua ferocidade e uma aparência que denota força e majestade, ficou marcado pelo epíteto de “rei da selva”. O cordeiro, um animal infanto, inofensivo, sensível, frágil e que por muito tempo foi utilizado como oferta sacrificial da fé judaíco-cristã para expiação de pecados. Em princípio, é difícil encontrar conexões entre essas duas figuras do reino animal, além do fato de seres mamíferos terrestres. No entanto, os dois se convergem n’Aquele que é o Salvador de toda humanidade, o Deus que é Eterno: Jesus Cristo. Mas como exatamente isso ocorre? Como o cordeiro e o leão são expressos na pessoa de Cristo?
Assim como o leão, Jesus se porta com majestade e é detentor de incomensurável poder. Não apenas é um “rei” como é o “Rei dos reis”. Sua mera fala é suficiente para silenciar os mares, romper nuvens e reviver mortos. Da mesma forma, assim como o cordeiro, Jesus se apresenta com ternura e humildade. E foi através de seu próprio corpo, de seu próprio sangue, expiou os pecados da humanidade, não apenas por um ano, conforme ocorria com os cordeiros sacrificados de acordo com a lei mosaíca, mas por todos os tempos. Ele era o sacrifício perfeito, imaculado.
Mas a relação entre essas facetas "animais" de Jesus vai além simplesmente da identificação de características coincidentes com as dos dois mamíferos: tanto a face do cordeiro quanto a face do leão se complementam, de tal modo que a existência do cordeiro depende da existência do leão e vice-e-versa.
Conforme está escrito na carta de Filipenses, capítulo 2, Jesus era Deus (versículo 6a), o "leão dos leões", Rei de tudo que existiu, existe e existirá, com poder suficiente para, em um rugido, refazer toda existência. Contudo, a despeito de tudo o que possuía, escolheu, voluntariamente, esvaziar a si próprio, desfazer-se de sua posição como “Rei dos reis” e se tornar como servo, semelhante aos homens (versículo 7), frágil, sensível e vulnerável, como um cordeirinho. Em outras palavras, é como se, propositalmente, um leão, um predador alfa, ocupante de uma posição de topo em cadeias alimentares do reino animal, deliberadamente decidisse passar por uma metamorfose para se tornar não meramente uma presa, mas um dos vulneráveis tipos de presa, um filhote, sem praticamente nenhum mecanismo biológico de defesa, um cordeiro. O leão se torna cordeiro.
Foi precisamente neste contexto da vulnerabilidade humana que Jesus, enquanto caminhou por esta terra, adotou um estilo de vida que não foi apenas contracultural em seu contexto histórico-social, mas ainda o é nos dias contemporâneos: viveu uma vida de sacrifício físico e emocional, que, com seu caminhar, entregou amor e ternura, tal qual um cordeirinho, por onde deixou suas pegadas marcadas; um estilo de vida que, por sua natureza revolucionária, de insatisfação com o status quo, gerou enorme oposição pelos poderes instalados do época. Um estilo de vida, portanto, que seria insustentável, sem que Jesus portasse, juntamente com a doçura e ternura do cordeiro, a coragem, a força e a perseverança do leão para seguir com seu ministério. O cordeiro e o leão caminham juntos.
Por fim, foi através de sua maior obra, de seu momento de maior humilhação, no qual foi açoitado, agregido verbal e fisicamente, cospido, despido, pregado e impalado, tudo isso (e muito mais) voluntária, silenciosa e amorosamente, que Jesus foi elevado à mais alta posição, ao trono à destra do Pai. Foi se oferecendo como um cordeiro sacrificial, imaculado - por ter vivido uma vida sem pecado algum - e absoluto - pois era o sacríficio para acabar com todos os sacrifícios - que foi elevado à posição de leão, vestido com a juba, a coroa, que representa sua vitória sobre a morte. O cordeiro se torna leão.
Em Jesus, portanto, o predador e sua presa não somente coexistem, como são codependentes - Não pode o leão, nem o cordeiro, existir sem que o outro também exista. Não pode, com efeito, existir invencibilidade sem vulnerabilidade, nem humildade sem coragem, nem majestade sem sacríficio. Dessa forma, meu irmão e minha irmã, não podemos nós, se de fato intentamos e aspiramos ser como Jesus, sermos apenas leões ou apenas cordeiros. Precisamos, assim como Ele mesmo o fez - e através da fé n’Ele - fazer coexistir em nós o Cordeiro e o Leão.
Oro para que, ao olhar para Jesus e ao intentar emular a Ele, você possa ver não apenas o Cordeiro ou apenas o Leão, mas a ambos, tal qual fossem, como de fato são, um só.
Amém!
Pedro Costa Mendes.

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