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O Espírito que sonda e o Cristo que redime

  • Foto do escritor: Pedro Mendes
    Pedro Mendes
  • 31 de ago. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: 1 de set. de 2025

Sem dúvidas, um dos mais negativos - se não o mais - aspectos da queda da humanidade é ter de conviver com o pecado. Durante toda história humana, esse mal que nos afasta de Deus e leva a performar os mais horrendos atos aos outros, mas também a nós mesmos, foi uma constante e deverá seguir sendo assim, até o dia em que Jesus retornar. 

No entanto, meu irmão e minha irmã, há de se fazer uma observação muito importante: ainda que por muitas vezes utilizemos o artigo definido, o pecado não existe apenas de forma unitária e sim multiforme - até por isso, provavelmente mais apropriado seria falar em “pecados” ao invés de “pecado”. A partir dessa observação, surgem alguns corolários: não há gradação de pecado e não podemos nem devemos fixar uma lista generalizante de pecados.

Não há gradação de pecado, porque pecado é tudo aquilo que nos afasta de Deus ou de Sua direção para nós. O que será que é mais grave? Colar na prova na escola ou se envolver em esquema de corrupção? Talvez o meu exemplo possa parecer muito extremo a você, meu irmão e minha irmã, mas em ambos os casos estamos agindo contrário ao que Deus deseja para nós. 

Ao colar em uma prova na escola, desenhoramos nossos pais, desmercemos todo o esforço dos professores em nos ensinar e prejudicamos a nós mesmos, apenas buscando uma vantagem no curto prazo. Se nos envolvemos em um esquema de corrupção, prejudicamos a todo aquele para quem os ganhos de fato deveriam ser destinados para, mais uma vez, obter uma vantagem de curto prazo. Em ambos os casos, estamos nos desviando do caminho de Deus, abrindo mão de agir de forma que glorifique seu Nome por motivos egoístas. Portanto, não devemos relativizar os pecados, porquanto em qualquer caso estamos nos afastando de Deus.

No entanto, tampoco nos cabe fixar uma lista de quais sejam os pecados. Há casos em que pode parecer muito simples identificarmos uma atitude pecaminosa (por exemplo, obviamente que assassinato é um pecado e não deve haver dúvida quanto a isso), mas há outros momentos em que surgem zonas cinzentas, qual seja: determinado comportamento é entendido como pecado por uma pessoa, mas não por outra. 

Eis uma ilustração: para mim, pessoalmente, eu me sinto, por vezes, pecando quando estou jogando videogame - sinto que, no tempo em que gasto jogando videogames (e eu gasto muito mais do que eu deveria), poderia estar investindo tempo com algo que fosse mais edificante - poderia estar ajudando minha família nas tarefas de casa, poderia estar conversando com um amigo que precisa de ajuda, poderia estar tendo um momento devocional com Deus. Mas será que outras pessoas se sentem assim jogando videogame? Será que outros simplesmente não desfrutam do momento de lazer e mantêm a consciência limpa diante de Deus? Cabe a mim apontar para o outro e chamá-lo de “pecador” só porque ele ou ela está jogando videogame?

Portanto, ao invés de se perguntar se "jogar videogame é um pecado?", mas produtivo seria se perguntar: "ao jogar videogame, sinto-me afastado de Deus? Sinto que poderia estar investindo meu tempo e os meus recursos em outra atividade que glorificaria o nome de Deus?". Alguns possivelmente diriam que fazer esse tipo de exercício de instropecção pode ser perigoso, dado que, como está escrito que o “coração humano é enganoso” (Jr 17.9) e, de fato, eles estão corretos nesta afirmação. No entanto, não se trata de buscar uma resposta a essa indagação mediante o coração humano, mas sim no coração espiritual, através de uma análise de consciência perante a Deus, guiada pelo Espírito Santo.

Meu irmão e minha irmã, Deus nos abençoou com o livre-árbitrio, para que pudessemos ser livres para escolher como viver. Ele jamais condiciona forçosamente nossa conduta. Mas é de nossa responsabilidade ter a plena consciência de que teremos de encarar as consequências de uma comportamento em que podemos perceber nossa consciência se retorcendo, podemos sentir o Espírito Santo nos incomodando e ainda assim persistir nessa atitude, sem remorso ou arrependimento.

E saiba disso: a Bíblia não vai fornecer todas as respostas sobre o que é pecado ou não. As escrituras não são um ditado de Deus, mas sim uma coletânia de textos escritos que, ainda que redigidos por seres humanos inspirados pelo Espírito Santo, estão situados e intimamente conectados a um tempo e espaço histórico-sociais determinados. Práticas que as sociedades dos tempos bíblicos reconheciam como moral e eticamente ofensivas já não o são nos dias atuais, da mesma forma que comportamentos normalizados naqueles tempo já não são mais admitidos. Nos cabe filtrar e discernir - novamente, com o auxílio do Santo Espírito - aquilo que, para nós individualmente, no contexto social em que vivemos, nos afasta ou não de Deus. Aquele que se subsidia puramente do texto bíblico para apontar o dedo a outro por uma atitude que identifica como pecaminosa faz o mesmo que os fariseus - aqueles mesmos que crucificaram Jesus - faziam, qual seja: encontrar alguém que abalava seu status quo e por um misto de medo e de arrogância hostilizar esse indivíduo disruptivo.

Mas, ao fim e ao cabo, o fato central é de que, infelizmente, cada um de nós segue com nossos pecados individuais, nos atormentando, pesando sobre nós, prejudicando nosso caminhar. Tão onerosa é a carga do pecado para alguns de nós que ficamos como o personagem paralítico no evangelho de Marcos 2, sem os movimentos das pernas, incapazes de se locomover sem ajuda. No entanto, pela glória de Deus, não precisamos nos desesperar, porque Jesus já venceu o pecado e na medida em que intencionalmente buscamos nos relacionar com Ele, conhecê-Lo mais profundamente e nos permitirmos sermos tocados por seu amor, seremos capaz de ouví-lo dizer, no fundo de nossas almas: “Filho, os teus pecados estão perdoados” (Mc 2.5), ao mesmo tempo em que sentimos uma sensação única de alívio, de ter um peso enorme tirado de nossas costas.

Meu irmão e minha irmã, o pecado pode ser camaleônico, pode ser sorrateiro, pode ser individual, pode ser indistinto em termos de gradação e efeito, mas não há pecado que resista a um exame de consciência guiado pelo Espírito Santo e ao olhar e toque amorosos de Jesus Cristo, que nos constragem a sermos mais como Ele. Cabe a nós ajudarmos a outros jamais tentando identificar neles pecados que aparecem na Bíblia, muito menos apontando dedo a eles para acusá-los, mas sim estimulá-los a examinar sua consciência perante a Deus e buscar arrependimento sincero aos braços de Jesus. Pecado algum será realmente identificado, quanto mais resolvido, por nenhum de nós, mas apenas aos cuidados de Jesus é que seremos conduzidos à santidade.


Oro para que possam cessar as cruéis e terríveis práticas que muitas Igrejas e pretensos cristãos adotam de usar o texto bíblico como código normativo para identificar o que é ou não pecado e fazer um apedrejamento simbólico a qualquer pobre alma que seja ré desse injusto e impiedoso julgamento. Que ao invés disso, os cristãos possam buscar exercitar sua consciência perante a Deus e intencional e sinceramente se arrependerem das práticas que puderam identificar como pecaminosas, também ajudando a outros para que possam fazer isso.


Amém!


Pedro Costa Mendes.


 
 
 

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