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O Tesouro dos tesouros

  • Foto do escritor: Pedro Mendes
    Pedro Mendes
  • 12 de out. de 2025
  • 5 min de leitura

Por ocasião de um longo voo em uma viagem de trabalho, assisti a um filme lançado recentemente, chamado “Pecadores”. Previamente a ver o longa dirigido por Ryan Coogler, sem sequer ter visto qualquer trailer ou mesmo lido a sinopse, esperava que fosse um filme de velho-oeste e que, pelo elenco selecionado e pelo histórico do diretor, fizesse uma abordagem que trouxesse a discussão sobre o racismo.

De fato, as duas hipóteses que imaginei estavam, em alguma medida, corretas, mas surgiram vários elementos que surpreenderam profundamente: primeiro, o filme também continha elementos de terror - não simplesmente psicológico ou velado, mas escancarado, com monstros fantasiosos. Segundo, e mais impactante para mim, foi a discussão central do filme.

Sem entrar em muitos detalhes, para não comprometer a experiência daqueles que por ventura desejam ou tenham a curiosidade de assistir ao filme, o debate principal da obra se dá a partir de contraposição entre constragimento social, que oprime, apriosiona, condiciona os comportamentos, e liberdade total, para se fazer aquilo que mais gosta, que mais gera prazer, mesmo que seja objeto de ojeriza para a sociedade ou para a própria família. 

O que acabou mais me chamando a anteção foi a forma com que esse debate se materializou, principalmente a partir da vida do protagonista, Samuel “Sammy” Moore, um rapaz que adora música, mas cujo pai, um pastor de Igreja, desestimula essa paixão do filho, tentando, alternativamente, impor-lhe o caminho religioso. 

Por alguns momentos durante o longa, essa discussão pessoal de Sammy é retomada, de tal maneira que a tradição religiosa cristã e o texto bíblico são posicionadas como “mentiras” que foram trazidas para condicionar “nossos comportamentos” e nos impedir de experimentar a verdadeira liberdade a qual, de acordo com a obra cinematográfica, somente poderia ser alcançada em momentos nos quais estamos tão imersos naquilo que estamos fazendo - e que gostamos de fazer - que somos levados a algo como um estado de “arrebatamento”, uma fugaz sensação do transcendental.

Devo admitir, meu irmão e minha irmã, que quando tive o primeiro contato com essa discussão, enquanto cristão, me senti extremamente desconfortável. Mas, passado algum tempo, me pus a refletir e chegar a algumas conclusões. A primeira é que todos nós cristãos devemos ter cuidado para não usar nossa fé como um instrumento de medida com escalas absolutas, isto é: Ou “A” é de Deus e portanto é glorioso, digno de louvor ou “B” é demoníaco e deveria ser retirado da face da terra e lançado ao fogo ardente. Tenho todo o direito de me sentir incomodado pela discussão abordada pelo filme, na mesma medida que Ryan Coogler tem todo direito de lançar o debate em primeiro lugar. O que não cabe a mim é categorizar o longa, seu diretor e todo o elenco como demoníacos simplesmente porquê eu entendo que o discurso defendido contrarie frontamente minha fé. A segunda, e mais importante, conclusão é de que, ainda que compreenda e respeite o direito da forma que como Coogler se posicionou em sua obra, não signfica, de modo algum que eu concorde com ele. Muito pelo contrário, de fato.

Mesmo que, infelizmente, seja uma realidade o fato de que existem - e sempre existiram - igrejas por aí afora que oprimem e tentam condicionar o comportamento de todo aquele que esteja dentro ou próximo de sua esfera de influência e que, por isso, acabam mais sendo um instrumento de aprisionamento do que libertação, é também verdade que a Igreja defendida por Jesus Cristo é muito distinta - de fato, diametralmente oposta - a esse tipo de abordagem.

Jesus não tem o desejo de cercear nosso comportamento. Tudo o que Ele quer de nós é entrega, confiança, fé - tudo de modo genuíno e voluntário. A partir dessa decisão, a qual reafirmamos todos os dias, iniciamos nossa caminhada ao lado d’Ele e, de maneira muito orgânica, guiados pelo Espírito Santo, nossa conduta será transformada e logo perceberemos que atividades que gostavámos pouco agregam a nós e outras que talvez não gostassemos tanto trazem muito mais edificação não somente a nós, mas aos nossos próximos.

No entanto, por muitas vezes nos distraímos, nos esquecemos de Jesus e, como os personagens do filme “Pecadores”, buscamos saciar esse clamor que vem da alma, que grita "liberdade", através das ferramentas que nos são mais facilmente acessíveis no mundo. Para Sammy Moore, essa resposta foi a música. E talvez as respostas que encontramos de fato atendem ao nosso clamor e nos conduzam a um estado de “arrebatamento”, mas é inegável - e isso é admitido durante o filme - que são respostas frágeis, fugazes, momentâneas.

Tantas e tantas vezes eu mesmo ainda me pego nesse ciclo, meu irmão e minha irmã. Procuro pelo que quer que seja, uma série, um filme, um videogame, uma atividade especial, que de alguma maneira me traga esse sentimento de alívio, de prazer, de “arrebatamento”. Contudo, ainda que em vários momentos eu consiga me sentir bem através de qualquer um desses recursos, aquele clamor, aquela fome, aquele desejo dentro de mim nunca é silenciado.

Mas nesta última semana, pouco tempo depois que vi o filme, o Senhor me ensinou uma preciosissíma lição, a qual desejo compartilhar com todos que leem este texto: “O Reino dos céus é como um tesouro escondido num campo. Certo homem, tendo-o encontrado, escondeu-o de novo e então, cheio de alegria, foi, vendeu tudo o que tinha e comprou todo aquele campo. O Reino dos céus também é como um negociante que procura pérolas preciosas. Encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo o que tinha e a comprou.” (Mt 13.44-46).

Ora, meu irmão e minha irmã, por quê nós gastamos tanta energia e recursos buscando tesouros tão frágeis quando tão facilmente podemos acessar o Reino dos céus? Talvez, o Reino dos céus soe como algo que está muito distante não apenas no espaço, mas também no tempo, porém, mediante a fé em Cristo, podemos descansar na certeza de que ele existe, de que virá e de nós podemos ser agentes dele nesta Terra.

Portanto, não precisamos caminhar como quem ainda está sedento por liberdade, sedento por justiça, sedento por paz ou pelo que quer que seja que nossa alma clama, mas sim como quem encontrou o Tesouro dos tesouros, a mais preciosa das preciosidades, a mais valiosa das riquezas. Pode ser muito difícil seguir assim em todos os momentos, mas, por todas as vezes que ouvirmos aquele grito insaciável dentro de nós, que possamos confiar e ter a paz de que já temos encontramos o Reino dos céus.

Oro para que todos nós possamos acordar e reafirmar genuinamente essa verdade todos os dias: não precisamos correr como quem está procurando desesperadamente por algo, mas como que caminhemos como alguém que está em paz, porque já encontrou o mais caro dos tesouros.


Amém!


Pedro Costa Mendes. 


 
 
 

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